Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Macacos odeiam água. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancada. Passado mais algum tempo, mais nenhum macaco subia a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que lhe bateram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo primeiro substituto participado, com entusiasmo, na surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam a bater naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles por que batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: " Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui... "
"É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO"(Albert Einstein)
domingo, 11 de novembro de 2007
E POR FALAR EM TROPA DE ELITE
Por falar em tropa de elite no comentário anterior, lembro que o filme retrata a realidade de uma tropa de um tipo de polícia, numa cidade específica, em um contexto de criminalidade específica – tráfico e o consumo de drogas – de determinados extratos sociais: no caso, uma discussão entre a classe média que consome drogas proibidas e a classe pobre dos moradores das favelas. Agora, para generalizar um pouco, pergunto: qual o brasileiro, independentemente de classe social, poder, cultura e não estar cometendo nenhuma infração específica não tem medo do que vai acontecer quando é parado pela polícia rodoviária numa estrada qualquer do país? Se todo mundo for sincero acho que vai responder: “é, eu posso estar com tudo certo, documentos do carro, não ter ultrapassado a velocidade permitida, nada disso, mas quando sou parado pela polícia rodoviária, sempre fica a sensação de que vou ser tratado como suspeito de alguma coisa e sempre vou imaginar da saída que a conversa do policial comigo vai ser meio enjoada”. Por que será que a sensação que o cidadão comum tem diante da polícia brasileira é essa?
TROPA DE ELITE
TROPA DE ELITE
O filme tem sido acusado de muitas coisas. A acusação mais comentada é de que seria fascista. Discordo. Concordar com essa opinião seria confundir ficção com realidade. Ou melhor, seria acreditar que um cineasta retrata uma dura realidade sobre a violência brasileira para fazer apologia de uma ideologia rejeitada pela maioria. O filme aponta em várias direções e deixa o espectador escolher sua conclusão. Ficam várias perguntas nas entrelinhas após assistirmos o filme. Formulo algumas das minhas.
1) Haverá outra forma de treinar policiais que não seja aquela brutal retratada no filme? (dizem que um consultor do próprio Bope treinou os atores).
2) Algo garante que treinados daquela forma os policiais permanecerão incorruptíveis? (nos diálogos do filme fica essa sugestão)
3) O filme questiona a dinâmica do tráfico de drogas ilícitas e seu consumo – relaciona oferta e demanda? Ou tenta dizer que são apenas estudantes universitários que consomem drogas e fazem passeatas pela paz?
4) O filme questiona o papel das ONGs que trabalham com inclusão social ou tenta dizer que o papel delas é sempre ambivalente porque fogem ao controle do poder oficial e assim têm um caráter duvidoso podendo, por exemplo, fazer acordos de não agressão com os “donos do morro”?
É um filme como qualquer outro. Chamá-lo se fascista é dar a ele um peso que não tem. Tem bons momentos e maus momentos. Seu tema é uma triste realidade social brasileira numa cidade grande. Não é todo o Brasil nem representa o que pensa a maioria dos brasileiros. Creio que a maioria dos brasileiros gostaria, antes de mais nada, de entender o que é que causa a tal guerra do tráfico. Gostaria de entender por quê umas drogas são proibidas e outras não, se algumas das drogas vendidas legalmente, como o tabaco e o álcool etílico nas mais variadas formas são tão ou mais perigosos à saúde quanto a cocaína. Acho também que uma boa parte da sociedade brasileira gostaria de ver nossos legisladores e governantes discutirem sério essas questões antes de qualificar o filme de forma definitiva.
O filme tem sido acusado de muitas coisas. A acusação mais comentada é de que seria fascista. Discordo. Concordar com essa opinião seria confundir ficção com realidade. Ou melhor, seria acreditar que um cineasta retrata uma dura realidade sobre a violência brasileira para fazer apologia de uma ideologia rejeitada pela maioria. O filme aponta em várias direções e deixa o espectador escolher sua conclusão. Ficam várias perguntas nas entrelinhas após assistirmos o filme. Formulo algumas das minhas.
1) Haverá outra forma de treinar policiais que não seja aquela brutal retratada no filme? (dizem que um consultor do próprio Bope treinou os atores).
2) Algo garante que treinados daquela forma os policiais permanecerão incorruptíveis? (nos diálogos do filme fica essa sugestão)
3) O filme questiona a dinâmica do tráfico de drogas ilícitas e seu consumo – relaciona oferta e demanda? Ou tenta dizer que são apenas estudantes universitários que consomem drogas e fazem passeatas pela paz?
4) O filme questiona o papel das ONGs que trabalham com inclusão social ou tenta dizer que o papel delas é sempre ambivalente porque fogem ao controle do poder oficial e assim têm um caráter duvidoso podendo, por exemplo, fazer acordos de não agressão com os “donos do morro”?
É um filme como qualquer outro. Chamá-lo se fascista é dar a ele um peso que não tem. Tem bons momentos e maus momentos. Seu tema é uma triste realidade social brasileira numa cidade grande. Não é todo o Brasil nem representa o que pensa a maioria dos brasileiros. Creio que a maioria dos brasileiros gostaria, antes de mais nada, de entender o que é que causa a tal guerra do tráfico. Gostaria de entender por quê umas drogas são proibidas e outras não, se algumas das drogas vendidas legalmente, como o tabaco e o álcool etílico nas mais variadas formas são tão ou mais perigosos à saúde quanto a cocaína. Acho também que uma boa parte da sociedade brasileira gostaria de ver nossos legisladores e governantes discutirem sério essas questões antes de qualificar o filme de forma definitiva.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
CINEMA E PSICANÁLISE
I
O cinema e a psicanálise nasceram praticamente ao mesmo tempo. O final do século XIX, apresentava à humanidade duas formas distintas, porém de alguma maneira bastante semelhantes, de articular o universo científico ao irracional, mágico, o universo da fantasia. Se por um lado o Cinema se utilizava de novas tecnologias ópticas para ampliar o olhar, para operar no universo do fantástico, para construir uma ilusão encantadora, por outro a Psicanálise passava a criar um olhar para ver o que há dentro, observar além do corpo. Procurava então desvendar a alma humana, olhar para o que há de irracional dentro do homem, dar-lhe nome, enfim, construir um olhar científico ao que não opera logicamente. Ambas então nascem desse curioso paradigma, muito presente nesse período histórico, da união da ciência e da irracionalidade
O cinema e a psicanálise têm muito em comum. Ambos tratam dos sonhos. Ambos expressam em imagens e sons as mais variadas, e geralmente desconhecidas, emoções humanas. Assim como o cinema, o sonho cria as cenas, une-as em seqüências (por vezes incompreensíveis) para poder dizer algo sobre o mundo interno. Para comunicar algo sobre as pessoas. Mensagens de ternura, experiências de caos e dor, encontros, desencontros, prazer, loucura...
A psicanálise em seu exercício clínico também se baseia na comunicação. Falada, mas não só. Na comunicação de gestos, de silêncios e de afetos não revelados. A psicanálise, como o sonho (ou o sonho como a psicanálise?), usa a linguagem como forma de expressão e comunicação.
Ouvindo um pouco mais atentamente o diálogo entre o cinema e a psicanálise descobrimos uma forma de ampliar nossas experiências sensoriais, afetivas e intelectuais e com isso desenvolver um pouco mais nosso pensamento crítico. Acompanhando imagens em movimento narrando histórias, ora belas, ora terríveis, outras vezes ainda, sem nenhum sentido aparente, aprofundamos o nosso aprendizado sobre a universalidade das emoções humanas. Compreendemos que o destino humano não é outro senão a eterna busca do sentido da vida, ainda que tenhamos a certeza de que essa busca é interminável e para sempre incompleta.
O cinema e a psicanálise nasceram praticamente ao mesmo tempo. O final do século XIX, apresentava à humanidade duas formas distintas, porém de alguma maneira bastante semelhantes, de articular o universo científico ao irracional, mágico, o universo da fantasia. Se por um lado o Cinema se utilizava de novas tecnologias ópticas para ampliar o olhar, para operar no universo do fantástico, para construir uma ilusão encantadora, por outro a Psicanálise passava a criar um olhar para ver o que há dentro, observar além do corpo. Procurava então desvendar a alma humana, olhar para o que há de irracional dentro do homem, dar-lhe nome, enfim, construir um olhar científico ao que não opera logicamente. Ambas então nascem desse curioso paradigma, muito presente nesse período histórico, da união da ciência e da irracionalidade
O cinema e a psicanálise têm muito em comum. Ambos tratam dos sonhos. Ambos expressam em imagens e sons as mais variadas, e geralmente desconhecidas, emoções humanas. Assim como o cinema, o sonho cria as cenas, une-as em seqüências (por vezes incompreensíveis) para poder dizer algo sobre o mundo interno. Para comunicar algo sobre as pessoas. Mensagens de ternura, experiências de caos e dor, encontros, desencontros, prazer, loucura...
A psicanálise em seu exercício clínico também se baseia na comunicação. Falada, mas não só. Na comunicação de gestos, de silêncios e de afetos não revelados. A psicanálise, como o sonho (ou o sonho como a psicanálise?), usa a linguagem como forma de expressão e comunicação.
Ouvindo um pouco mais atentamente o diálogo entre o cinema e a psicanálise descobrimos uma forma de ampliar nossas experiências sensoriais, afetivas e intelectuais e com isso desenvolver um pouco mais nosso pensamento crítico. Acompanhando imagens em movimento narrando histórias, ora belas, ora terríveis, outras vezes ainda, sem nenhum sentido aparente, aprofundamos o nosso aprendizado sobre a universalidade das emoções humanas. Compreendemos que o destino humano não é outro senão a eterna busca do sentido da vida, ainda que tenhamos a certeza de que essa busca é interminável e para sempre incompleta.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
UM DESERTO
UM DESERTO
árido sudário
partilha dos ossos
expostos à visitação
dos ventos
vigília do tempo
secura do silêncio
recusa das palavras
inventário de feridas
árido sudário
partilha dos ossos
expostos à visitação
dos ventos
vigília do tempo
secura do silêncio
recusa das palavras
inventário de feridas
domingo, 15 de julho de 2007
TEORIAS DA ALMA por LYA LUFT
TEORIAS DA ALMA
(Lya Luft)
Quanto mais recursos temos no campo da psicologia e dos novos conhecimentos sobre as relações humanas, mais inseguros estamos.
Quanto mais civilizados, menos naturais somos. Na época em que mais se fala em natureza estamos mais distantes dela. Ser natural passou a não ser natural.
Assim é com criar filhos. Perplexos diante de mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios de todo tipo de terapias (pelas razões mais singulares), estamos nos convencendo de que ter e criar filho não é lá muito natural.
Passamos do extremo antigo de achar que criança não pensa ao outro extremo: criança é complicação. Mil receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos. A aflição não é boa conselheira. Afobado, aliás, a gente ama bem mal...
Esquecemos o melhor mestre: o bom senso. A escuta do que temos em nosso interior, aquela coisa antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom senso e ter algo dentro de nós para ser escutado.
Ou cada vez que o bebê chorar desafinado, a criança ficar menos ativa (em geral ela está simplesmente pensando, querendo que finalmente a deixem um pouco quieta), vamos correndo procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, dar a mamadeira, olhar no olho, aconchegar no peito a criança nossa de cada dia.
É que somos, além de aflitos, desorientados. Falta-nos o hábito de observar e de refletir. Preferimos evitar e espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo crianças.
Não gostamos de refletir e decidir. “Se a gente parar para pensar, tudo desmorona”, me disse alguém.
Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar.
Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado – e um recado – tranqüilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios.
Ser natural está em crise grave.
(Perdas & Ganhos - Lya Luft, Editora Record)
(Lya Luft)
Quanto mais recursos temos no campo da psicologia e dos novos conhecimentos sobre as relações humanas, mais inseguros estamos.
Quanto mais civilizados, menos naturais somos. Na época em que mais se fala em natureza estamos mais distantes dela. Ser natural passou a não ser natural.
Assim é com criar filhos. Perplexos diante de mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios de todo tipo de terapias (pelas razões mais singulares), estamos nos convencendo de que ter e criar filho não é lá muito natural.
Passamos do extremo antigo de achar que criança não pensa ao outro extremo: criança é complicação. Mil receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos. A aflição não é boa conselheira. Afobado, aliás, a gente ama bem mal...
Esquecemos o melhor mestre: o bom senso. A escuta do que temos em nosso interior, aquela coisa antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom senso e ter algo dentro de nós para ser escutado.
Ou cada vez que o bebê chorar desafinado, a criança ficar menos ativa (em geral ela está simplesmente pensando, querendo que finalmente a deixem um pouco quieta), vamos correndo procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, dar a mamadeira, olhar no olho, aconchegar no peito a criança nossa de cada dia.
É que somos, além de aflitos, desorientados. Falta-nos o hábito de observar e de refletir. Preferimos evitar e espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo crianças.
Não gostamos de refletir e decidir. “Se a gente parar para pensar, tudo desmorona”, me disse alguém.
Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar.
Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado – e um recado – tranqüilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios.
Ser natural está em crise grave.
(Perdas & Ganhos - Lya Luft, Editora Record)
segunda-feira, 2 de julho de 2007
ÁLCOOIS
ÁLCOOIS
Depois
que tudo o mais me cansa
de escambo em escambo
troco as rotas e
trôpego
desdenho as quedas e
em piruetas
avanço bêbado.
Depois
que tudo o mais me cansa
de escambo em escambo
troco as rotas e
trôpego
desdenho as quedas e
em piruetas
avanço bêbado.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
CONSTANTES GRAVITACIONAIS E O FIM DE TUDO
Até o universo é finito. Um dia tudo isso irá se acabar. Bum!
Segundo o poeta T.S. Elliot, o mundo vai se acabar, não numa explosão, mas num suspiro.
Em minhas incursões pelos livros de física aprendi que até algum tempo atrás a dúvida sobre o destino do universo balançava entre três hipóteses.
A primeira, considerava que se a constante gravitacional fosse maior do que 1, toda a massa existente iria se expandir até um determinado ponto e a partir daí começaria uma regressão até voltar ao ponto inicial que deu origem ao big bang, ficando infinitamente brincando de sanfona cósmica: big bang - big crunch.
A segunda hipótese pressupõe uma constante gravitacional tendendo para o zero, o que significaria que um dia a expansão iria se estabilizar e o universo seria eterno e imutável a partir daí.
E a terceira hipótese é a de que a constante gravitacional pode ser menor do que zero. O resultado disso é que a matéria existente, já em expansão desde o big bang, escaparia da força da gravidade e não tendo energia para manter-se coesa iria tornando-se cada vez mais rarefeita até desaparecer por completo. E depois disso, fim, the end, acabou mesmo!
"Never more!", diria o corvo de Edgar A. Poe.
É claro que a terceira hipótese é que está correta, né? Tinha que ser!
Segundo o poeta T.S. Elliot, o mundo vai se acabar, não numa explosão, mas num suspiro.
Em minhas incursões pelos livros de física aprendi que até algum tempo atrás a dúvida sobre o destino do universo balançava entre três hipóteses.
A primeira, considerava que se a constante gravitacional fosse maior do que 1, toda a massa existente iria se expandir até um determinado ponto e a partir daí começaria uma regressão até voltar ao ponto inicial que deu origem ao big bang, ficando infinitamente brincando de sanfona cósmica: big bang - big crunch.
A segunda hipótese pressupõe uma constante gravitacional tendendo para o zero, o que significaria que um dia a expansão iria se estabilizar e o universo seria eterno e imutável a partir daí.
E a terceira hipótese é a de que a constante gravitacional pode ser menor do que zero. O resultado disso é que a matéria existente, já em expansão desde o big bang, escaparia da força da gravidade e não tendo energia para manter-se coesa iria tornando-se cada vez mais rarefeita até desaparecer por completo. E depois disso, fim, the end, acabou mesmo!
"Never more!", diria o corvo de Edgar A. Poe.
É claro que a terceira hipótese é que está correta, né? Tinha que ser!
segunda-feira, 25 de junho de 2007
A NEGAÇÃO DA MORTE
Há cerca de dois meses eu estava numa livraria em Juiz de Fora, cujo dono tornou-se meu amigo e é um livreiro à maneira antiga, daqueles que sabem tudo, parece que já leram todos os livros já escritos e encontra nas prateleiras da loja qualquer coisa que lá existir em questão de segundos. É apreciador de música clássica, é discreto, fala baixo parecendo que está pedindo desculpas. Da última vez em que estive lá, me presenteou com dois livros escritos pelo pai dele que contam passagens da época colonial nas Minas Gerais.
Nessa visita à Livraria Liberdade, numa passagem pela estante de filosofia, Marcos – esse é o nome do livreiro – tira da estante um livro, me mostra e diz que é um ótimo livro. Enfático, afirma que talvez seja um dos melhores livros que ele já lera. Corajoso em afirmar isso. Afinal, todo grande leitor de livros como ele e eu, tem grande dificuldade em dizer qual ou quais os melhores livros já lidos. Fico curioso. Não conheço o autor. Marcos percebe minha dúvida. Diz que eu posso levar o livro e que se eu não gostar ele aceita que eu o devolva. “Opa”, penso, “agora ele está se arriscando num salto mortal sem rede”. Decido que diante de uma recomendação dessas não tenho saída. Levo o livro. E Marcos tinha razão. O livro é A Negação da Morte, de Ernest Becker. O autor é um antropólogo americano, já morto. Ele faz um longo ensaio sobre a leitura da morte pela visão da psicanálise. O medo e fascínio do ser humano diante da finitude. O grande dilema humano: saber-se mortal e ter um apego desmesurado à vida. A crença íntima que cada um de nós tem de que no fundo, no fundo, somos imortais. Todos irão morrer um dia; eu, não. Assim pensamos nós, pobres humanos. Pobres humanos, condenados a sabermos que temos um fim; um dia tudo acaba inexoravelmente. Desde o começo dos tempos filósofos e loucos pensam sobre esse tema e desde sempre convivemos com isso, com essa idéia tão aterrorizante: somos finitos, somos mortais, a biologia é nossa sina. Temos uma alma, um espírito, uma psique, seja lá que nome tenha, que se acredita imortal, mas temos uma maldição biológica que nega essa imortalidade.
E o que fazemos? Fazemos tudo o que fazemos. Amamos, gozamos, deixamos uma prole espalhada pelo mundo. Sempre esperamos que nossos filhos nos sucedam e repitam tudo o que fizemos. Que amem, que gozem, que perpetuem a espécie. E o tempo todo, a espada do tempo pendendo sobre nossas cabeças.
Sabemos dessas coisas o tempo todo, mas é bom que alguém escreva bem sobre isso. E é disso que trata esse livro. O Marcos tinha razão. A Negação da Morte passou a ser para mim, também, um dos melhores livros. E nem o acabei ainda.
Nessa visita à Livraria Liberdade, numa passagem pela estante de filosofia, Marcos – esse é o nome do livreiro – tira da estante um livro, me mostra e diz que é um ótimo livro. Enfático, afirma que talvez seja um dos melhores livros que ele já lera. Corajoso em afirmar isso. Afinal, todo grande leitor de livros como ele e eu, tem grande dificuldade em dizer qual ou quais os melhores livros já lidos. Fico curioso. Não conheço o autor. Marcos percebe minha dúvida. Diz que eu posso levar o livro e que se eu não gostar ele aceita que eu o devolva. “Opa”, penso, “agora ele está se arriscando num salto mortal sem rede”. Decido que diante de uma recomendação dessas não tenho saída. Levo o livro. E Marcos tinha razão. O livro é A Negação da Morte, de Ernest Becker. O autor é um antropólogo americano, já morto. Ele faz um longo ensaio sobre a leitura da morte pela visão da psicanálise. O medo e fascínio do ser humano diante da finitude. O grande dilema humano: saber-se mortal e ter um apego desmesurado à vida. A crença íntima que cada um de nós tem de que no fundo, no fundo, somos imortais. Todos irão morrer um dia; eu, não. Assim pensamos nós, pobres humanos. Pobres humanos, condenados a sabermos que temos um fim; um dia tudo acaba inexoravelmente. Desde o começo dos tempos filósofos e loucos pensam sobre esse tema e desde sempre convivemos com isso, com essa idéia tão aterrorizante: somos finitos, somos mortais, a biologia é nossa sina. Temos uma alma, um espírito, uma psique, seja lá que nome tenha, que se acredita imortal, mas temos uma maldição biológica que nega essa imortalidade.
E o que fazemos? Fazemos tudo o que fazemos. Amamos, gozamos, deixamos uma prole espalhada pelo mundo. Sempre esperamos que nossos filhos nos sucedam e repitam tudo o que fizemos. Que amem, que gozem, que perpetuem a espécie. E o tempo todo, a espada do tempo pendendo sobre nossas cabeças.
Sabemos dessas coisas o tempo todo, mas é bom que alguém escreva bem sobre isso. E é disso que trata esse livro. O Marcos tinha razão. A Negação da Morte passou a ser para mim, também, um dos melhores livros. E nem o acabei ainda.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
domingo, 10 de junho de 2007
quarta-feira, 6 de junho de 2007
ECOLOGIA MENTAL - a propósito do dia mundial do meio ambiente
Hoje procuramos evitar a todo custo a destruição do meio ambiente natural porque isso significa não somente que dessa forma a vida se tornaria cada vez mais árida e difícil mas porque no limite isso levaria à extinção da maioria ou até mesmo de todas as espécies vivas em longo prazo. Os seres vivos precisam da diversidade do meio ambiente para continuar existindo.
Consideremos que o próprio meio interno emocional do ser humano constitui um meio ambiente. É em nosso ambiente emocional que existimos já que nós, humanos, somos mais do que instintos e a emoção é que nos governa e nos situa diante de nosso semelhante e de nosso mundo. É a partir de nossas emoções que temos consciência de nós mesmos, são nossas emoções que acionam nossa memória para contarmos nossa história incessantemente. Nosso ambiente emocional é um meio ambiente com regras semelhantes ao meio ambiente natural, do qual dependemos para termos uma vida com qualidade e conforto.
Podemos detestar os pernilongos, ter nojo das baratas ou temer os animais peçonhentos, mas sabemos que essas e todas as outras espécies existentes fazem parte de uma infinita cadeia biológica bem estruturada e que mesmo que conseguíssemos eliminar algumas dessas espécies de nossa vida, certamente as conseqüências seriam desequilíbrios ambientais tão graves que é melhor tentarmos ir convivendo com eles mesmo que nos causem algum incômodo. No meio ambiente mental acontece algo semelhante ao que se passa no mundo natural.
Quando alguém busca incessantemente sufocar ou suprimir as emoções que considera desagradáveis ou que causam algum grau de sofrimento, como a raiva, a frustração ou a tristeza, pode estar também eliminando parte de uma rede de conexões importantes que garantem a continuidade da vida emocional saudável e que podem dar origem a outras formas de pensar e de sentir. Isso assegura a sensação que todos precisamos ter de continuidade em nossa cadeia de existência. Resumindo: através dos momentos que nos trazem sentimentos agradáveis de satisfação e de prazer aprendemos coisas e tentamos repetir essa experiência mas para que surja esse desejo de repetição do que gostamos é preciso que por algum tempo esses sentimentos desapareçam ou mesmo sejam temporariamente substituídos por sentimentos que não gostamos de ter. Desta forma, se estamos tristes porque perdemos alguém ou porque estamos atravessando um momento difícil qualquer, é natural que tenhamos nosso apetite diminuído, por exemplo, ou a libido fique reduzida. Não há nada a fazer nessas horas a não ser buscar nossos próprios recursos mentais, além de aceitar o consolo das pessoas que gostam de nós e que compartilham esses sentimentos. Assim se forma um pequeno elo dessa cadeia emocional humana. No entanto, nem sempre é isso que observamos. É cada vez maior o número de pessoas nos dias atuais que têm pouca tolerância com sofrimentos emocionais naturais como esses. Muitas pessoas confundem tristeza com depressão. Confundem uma mudança passageira no padrão alimentar (para mais ou para menos) como transtornos alimentares. Podem confundir uma leve insegurança com síndrome do pânico. Uma noite de sono agitado pode parecer para essas pessoas o verdadeiro fim do mundo e no dia seguinte correm em busca de um remédio para dormir. Tudo não passa de um exagero. É importante e necessário lembrar desses fatos porque a população que hoje se vê vítima dessas confusões, também acaba recorrendo ao uso de remédios para corrigir esses sentimentos naturais, causando em si mesmas um desequilíbrio em sua ecologia emocional. Não precisam simplesmente parar de se preocupar e podem até mesmo procurar um especialista para ouvir uma opinião profissional mas o que não devem é já começar achando que tudo é doença. É como se disséssemos que com esses pensamentos o meio ambiente dessas pessoas tornou-se artificial. Seria o mesmo que construir uma fábrica poluidora em plena selva amazônica e além disso, eliminasse todo o ecossistema local para a fábrica poder funcionar. Certamente um verdadeiro desastre.
Temos que a todo momento lembrar a muitas pessoas que uma vida de prazer perene é impossível. Tentamos evitar os sentimentos desagradáveis mas também precisamos de um pouquinho de sofrimento para estabelecer um equilíbrio emocional. Sem nenhum sofrimento em pouco tempo estaríamos desinteressados pela vida e pereceríamos rapidamente ou nos transformaríamos em autômatos sem alma e tudo perderia completamente o sentido. É a variedade e o colorido emocional que dão sentido à existência.Assim como é importante ensinar a educação ambiental às crianças pois elas é que farão as mudanças no nosso meio ambiente – já que os adultos com poder de decisão até o momento têm mostrado pouca sensibilidade para o tema – também temos que lembrar que ninguém precisa sofrer desnecessariamente mas também não se poderá jamais eliminar todo o sofrimento do ser humano. O resgate para isso, assim como na conservação ecologicamente responsável do meio ambiente, é a revalorização da solidariedade, dos ideais de fraternidade e da compreensão de si mesmo a partir do seu semelhante.
Consideremos que o próprio meio interno emocional do ser humano constitui um meio ambiente. É em nosso ambiente emocional que existimos já que nós, humanos, somos mais do que instintos e a emoção é que nos governa e nos situa diante de nosso semelhante e de nosso mundo. É a partir de nossas emoções que temos consciência de nós mesmos, são nossas emoções que acionam nossa memória para contarmos nossa história incessantemente. Nosso ambiente emocional é um meio ambiente com regras semelhantes ao meio ambiente natural, do qual dependemos para termos uma vida com qualidade e conforto.
Podemos detestar os pernilongos, ter nojo das baratas ou temer os animais peçonhentos, mas sabemos que essas e todas as outras espécies existentes fazem parte de uma infinita cadeia biológica bem estruturada e que mesmo que conseguíssemos eliminar algumas dessas espécies de nossa vida, certamente as conseqüências seriam desequilíbrios ambientais tão graves que é melhor tentarmos ir convivendo com eles mesmo que nos causem algum incômodo. No meio ambiente mental acontece algo semelhante ao que se passa no mundo natural.
Quando alguém busca incessantemente sufocar ou suprimir as emoções que considera desagradáveis ou que causam algum grau de sofrimento, como a raiva, a frustração ou a tristeza, pode estar também eliminando parte de uma rede de conexões importantes que garantem a continuidade da vida emocional saudável e que podem dar origem a outras formas de pensar e de sentir. Isso assegura a sensação que todos precisamos ter de continuidade em nossa cadeia de existência. Resumindo: através dos momentos que nos trazem sentimentos agradáveis de satisfação e de prazer aprendemos coisas e tentamos repetir essa experiência mas para que surja esse desejo de repetição do que gostamos é preciso que por algum tempo esses sentimentos desapareçam ou mesmo sejam temporariamente substituídos por sentimentos que não gostamos de ter. Desta forma, se estamos tristes porque perdemos alguém ou porque estamos atravessando um momento difícil qualquer, é natural que tenhamos nosso apetite diminuído, por exemplo, ou a libido fique reduzida. Não há nada a fazer nessas horas a não ser buscar nossos próprios recursos mentais, além de aceitar o consolo das pessoas que gostam de nós e que compartilham esses sentimentos. Assim se forma um pequeno elo dessa cadeia emocional humana. No entanto, nem sempre é isso que observamos. É cada vez maior o número de pessoas nos dias atuais que têm pouca tolerância com sofrimentos emocionais naturais como esses. Muitas pessoas confundem tristeza com depressão. Confundem uma mudança passageira no padrão alimentar (para mais ou para menos) como transtornos alimentares. Podem confundir uma leve insegurança com síndrome do pânico. Uma noite de sono agitado pode parecer para essas pessoas o verdadeiro fim do mundo e no dia seguinte correm em busca de um remédio para dormir. Tudo não passa de um exagero. É importante e necessário lembrar desses fatos porque a população que hoje se vê vítima dessas confusões, também acaba recorrendo ao uso de remédios para corrigir esses sentimentos naturais, causando em si mesmas um desequilíbrio em sua ecologia emocional. Não precisam simplesmente parar de se preocupar e podem até mesmo procurar um especialista para ouvir uma opinião profissional mas o que não devem é já começar achando que tudo é doença. É como se disséssemos que com esses pensamentos o meio ambiente dessas pessoas tornou-se artificial. Seria o mesmo que construir uma fábrica poluidora em plena selva amazônica e além disso, eliminasse todo o ecossistema local para a fábrica poder funcionar. Certamente um verdadeiro desastre.
Temos que a todo momento lembrar a muitas pessoas que uma vida de prazer perene é impossível. Tentamos evitar os sentimentos desagradáveis mas também precisamos de um pouquinho de sofrimento para estabelecer um equilíbrio emocional. Sem nenhum sofrimento em pouco tempo estaríamos desinteressados pela vida e pereceríamos rapidamente ou nos transformaríamos em autômatos sem alma e tudo perderia completamente o sentido. É a variedade e o colorido emocional que dão sentido à existência.Assim como é importante ensinar a educação ambiental às crianças pois elas é que farão as mudanças no nosso meio ambiente – já que os adultos com poder de decisão até o momento têm mostrado pouca sensibilidade para o tema – também temos que lembrar que ninguém precisa sofrer desnecessariamente mas também não se poderá jamais eliminar todo o sofrimento do ser humano. O resgate para isso, assim como na conservação ecologicamente responsável do meio ambiente, é a revalorização da solidariedade, dos ideais de fraternidade e da compreensão de si mesmo a partir do seu semelhante.
sábado, 26 de maio de 2007
EXCESSOS DA POLÍCIA FEDERAL?
Nós, brasileiros, nascemos, crescemos e passamos a nossa vida reclamando da corrupção que campeia na política, no judiciário, na sociedade civil, e principalmente nas relações promíscuas entre poder público, dinheiro público e empreiteiras da construção civil. Temos um conhecimento "atávico" de que existe corrupção na maioria dos contratos de obras públicas. Encurtando o papo, nenhum brasileiro ignora essas coisas. Finalmente, começam a ser presos e indiciados políticos, empreiteiros, juízes, com evidências mais do que evidentes. E o que acontece??? Começa a choradeira que inclui até o presidente da república, passando pelo judiciário, pelos políticos e a turma toda reclamando que a Polícia Federal comete "excessos". Ora veja! Logo a polícia!? Engraçado, nunca ouvi presidente da república reclamar de excessos cometidos pela polícia comum (qualquer uma) quando pobres são torturados em delegacias, quando a polícia invade barracos de morros e/ou é suspeita de corrupção. Logo agora que o povo brasileiro tem a oportunidade de fazer a sua catarse coletiva ouvindo nos jornais da TV as conversinhas prá lá de malandras nas gravações telefônicas que a polícia faz entre essa raça de corruptos: políticos, empreiteiros, atravessadores... logo agora, vem os caras que mandam no país reclamar dos excessos da polícia na divulgação dos fatos.
Mimha geração cresceu odiando polícias em geral. Fomos reprimidos pela ditadura militar e a polícia federal era apenas sinônimo de repressão. Os tempos mudaram. Nem sei se as polícias mudaram tanto assim, mas o fato é que hoje ela cumpre bem melhor o seu papel. Aí, quando essa atuação parece ser o retrato do que a sociedade espera da polícia, aparecem os espertinhos de sempre reclamando dos "excessos". Não será um excesso de cara de pau, não?
domingo, 20 de maio de 2007
Citação de um poema
"Se você não está confuso então não tá entendendo nada"
(Jim Dodge - Verso do poema "Preceitos Básicos e Avisos Adicionais a Jovens Escroques).
(Jim Dodge - Verso do poema "Preceitos Básicos e Avisos Adicionais a Jovens Escroques).
domingo, 13 de maio de 2007
FRASE DO DIA
De Galvão Bueno, da rede globo, comentando um pequeno acidente hoje no comecinho da corrida de fórmula 1: "Em fórmula 1 é assim amigo, se três carros freiam e o que vem atrás acelera, o de trás bate no da frente!"
Que gênio, que gênio!
Como diz José Simão, não confunda: quem foi canonizado foi o Frei Galvão. Galvão Bueno pensa que é Deus.
Que gênio, que gênio!
Como diz José Simão, não confunda: quem foi canonizado foi o Frei Galvão. Galvão Bueno pensa que é Deus.
E o Papa, hein?! E a rede globo, hein?!
E o papa, hein?! Tem milhões de seguidores. Tem os que sempre foram seguidores e tem a rede globo forçando uma tremenda barra, entupindo seus jornais com as notícias sobre a visita do papa. Para conquistar novos fiéis? Quem sabe?
Arrisco um palpite. Acredito que seja polêmico. Penso assim: a rede globo conhecendo bem uma parcela expressiva de brasileiros que ainda se dizem católicos quando precisam preencher alguns formulários ou mesmo quando são perguntados informalmente se seguem alguma religião, e sabendo que esse tipo de "católico" não segue fielmente os preceitos do Vaticano, pois bem, eu dizia, acho que é pra esses daí que a rede globo está fazendo esse jogo de cena. E por que? Acho que é porque o número de seguidores de denominações evangélicas, principalmente as neo-pentescostais, tem crescido a ponto de ameaçar o predomínio católico no Brasil. E muitas dessas igrejas evangélicas tem um controle rígido sobre a conduta moral de seus fiéis. Tenho constatado a partir de conversas com diversos tipos de avengélicos que muitos deles seguem fielmente essas regras de uma forma que muitos católicos nunca seguiram. A questão do sexo antes do casamento, por exemplo. Vamos ser honestos (me dirijo aos "católicos" que não são, digamos, seguidores muitos rigorosos das normas da religião): dá pra acreditar que muita gente segue isso direitinho? É claro que não. Outro dia mesmo eu estava conversando com uma amiga católica que é contra o aborto. Ela dizia que entendia minhas razões mas continuava com seu ponto de vista. E eu perguntei a ela, que é solteira, o que achava do sexo fora casamento (coisa que ela, obviamente pratica). Ela me disse que aí não dava pra aceitar a exigência do papa. Pois é, disse eu, que moral dupla. Você é contra o aborto dos outros porque não é um problema que te afete nesse momento. Mas não abre mão de fazer sexo mesmo que de uma forma que a SUA igreja não aprova. Muito conveniente, não?
Voltando ao começo. Onde é que entra a rede globo nessa história? Entra da seguinte forma: a globo prefere fazer o jogo de que apóia os mandamentos do papa porque como rede de televisão vai continuar mostrando o que bem entende (e dê audiência, é claro!) como cenas de sexo quase explícito às 18 horas e nos filmes que passa, cenas violentíssimas com violência urbana, guerras etc, sem as restrições que muitos evangélicos têm a esses temas. Além disso, os canais de TV evangélicos são concorrentes de TV globo. Isso talvez explique a saturarçao de matérias sobre o papa que ela impôs nos dias da visita deste ao Brasil. A ponto de encher a paciência de qualquer um.
sábado, 5 de maio de 2007
DROGAS PROIBIDAS
Segundo informação divulgada na imprensa, no Rio de Janeiro, do início do ano até abril de 2007 morreram 123 pessoas vítimas de balas perdidas em tiroteios entre a polícia e traficantes de drogas ou entre traficantes de quadrilhas rivais. Dá uma média de 30 pessoas mortas por mês; uma por dia. Ainda segundo o noticiário, essas 123 pessoas seriam inocentes, isto é, transeuntes baleados sem terem nada a ver com os envolvidos diretamente no confronto. São crianças indo para a escola, trabalhadores, donas de casa. Sem contar os feridos. Sem contar os envolvidos nos tiroteios, policiais e criminosos. O número é alarmante sob qualquer ponto de vista, sendo mais grave o fato de que não estamos vivendo nenhuma guerra civil oficial e que o Rio de Janeiro é acima de tudo uma cidade turística, de fama mundial. Diante disso, pergunto: se o tráfico de drogas é responsável por essa tragédia e se tudo se deve ao fato das drogas serem proibidas, não é urgente acelerarmos a discussão sobre a ilegalidade das drogas? A quem interessa a proibição de algumas drogas e de outras não? Os que são contrários ao livre acesso das pessoas a drogas como a maconha e a cocaína estão nos protegendo exatamente de que? O que eles têm a dizer sobre o álcool e o tabaco serem vendidos livremente e serem causadores de acidentes mortais e doenças igualmente mortais ou incapacitantes?
Sabemos que essas questões, por mais evidentes que sejam, para serem discutidas em fóruns públicos como a Câmara dos Deputados e no Senado levam muitos anos e esbarram em interesses totalmente obscuros. Enquanto isso, morrem inocentes.
Haverá alguma estatística médica disponível sobre o número de mortos na mesma cidade do Rio de Janeiro por conseqüência do uso de drogas proibidas? Quantas pessoas morrem por mês porque usaram cocaína ou maconha? Se existe essa estatística, poucos a conhecem. Apenas uma estatística real que mostrasse que essas drogas causam muitas mortes e prejuízos justificaria o furor com que os conservadores defendem a proibição sumária, sem discussões. E mesmo assim, como justificar a morte de inocentes nessa guerra?
Curiosamente, as mesmas drogas consumidas no Rio de Janeiro são consumidas em quase todo o mundo. Não ouvimos falar de pessoas (traficantes ou inocentes) morrendo feito moscas nas ruas de Nova York, de Buenos Aires, de Londres, de Lisboa ou de qualquer cidade civilizada. Nesses países essas drogas também são proibidas e lá a polícia também reprime o tráfico e consumo. Por que só no Rio de Janeiro isso é tão trágico?
Temos bons sociólogos, historiadores, nossos políticos estão sempre viajando para outros países, especialistas em segurança pública estão sempre aparecendo na mídia para comentar suas opiniões sobre o assunto e nada muda. Pessoas inocentes continuam morrendo nas ruas do Rio.
Durante muitos anos criou-se uma cultura do medo das drogas sem uma compreensão sobre o assunto. Dizia-se que drogas eram perigosas, divulgava-se publicamente essa noção sem maiores esclarecimentos, e pronto. Talvez na cultura brasileira ainda persista um ranço do medo ilógico, do medo sem explicação. Um exemplo afastado desse tema pode ilustrar esse fato: ainda hoje, mais de 20 anos depois de ter terminado uma ditadura militar de extrema direita que amordaçou o povo por 20 anos, ainda encontramos pessoas que “xingam” outras pessoas de “comunista”, de “subversivo” etc. Será por acaso? Será um direitismo orgânico? atávico? Provavelmente não. Talvez seja o hábito de sentir medo sem questionar suas razões, sem procurar conhecer melhor sobre o assunto, sem perguntar a opinião do vizinho, do colega de trabalho.
Quanto a esse medo das drogas, observo, como médico, que se passa algo semelhante. Às vezes ainda ouço no consultório, pais que têm filhos envolvidos com drogas, ou pais que simplesmente têm medo que isso aconteça com seus filhos, repetirem como um mantra: “não conheço essas coisas, nunca conheci, nem quero conhecer, não sei a cor nem o cheiro que isso tem, Deus me livre!”. Isso retrata um medo irracional mas ao mesmo tempo mostra que, pelo fato dessas pessoas estarem ideologicamente contaminadas pela idéias de que tudo que se relaciona com as drogas é perigoso e marginal, acreditam que não conhecendo, não estarão se envolvendo. E por isso mesmo, nem discutem o assunto. É proibido e pronto. Curiosamente, muitas dessas pessoas não se opõem, por exemplo, a ter uma arma em casa (supostamente, um artefato que deveria estar ligado somente àqueles que por qualquer razão profissional precisam disso). Outras dessas pessoas, também curiosamente, não tem nenhuma opinião negativa quanto a voltarem de uma festa guiando seu carro depois de terem tomado uns drinques. Algumas também são fumantes de tabaco, mas... “sabe como é, doutor, é tão difícil largar esse vício...”.
Enquanto isso, a uma hora dessas, uma criança de seis anos pode estar caída morta numa rua do Rio de Janeiro com uma bala perdida que encontrou sua cabecinha em seu trajeto. Enquanto isso a sociedade continua acreditando que viveríamos num mundo mais perfeito sem os perigosos traficantes e suas drogas destruidoras de lares.
Um pouco mais de coerência nessa discussão poderia poupar algumas vidas inocentes.
Sabemos que essas questões, por mais evidentes que sejam, para serem discutidas em fóruns públicos como a Câmara dos Deputados e no Senado levam muitos anos e esbarram em interesses totalmente obscuros. Enquanto isso, morrem inocentes.
Haverá alguma estatística médica disponível sobre o número de mortos na mesma cidade do Rio de Janeiro por conseqüência do uso de drogas proibidas? Quantas pessoas morrem por mês porque usaram cocaína ou maconha? Se existe essa estatística, poucos a conhecem. Apenas uma estatística real que mostrasse que essas drogas causam muitas mortes e prejuízos justificaria o furor com que os conservadores defendem a proibição sumária, sem discussões. E mesmo assim, como justificar a morte de inocentes nessa guerra?
Curiosamente, as mesmas drogas consumidas no Rio de Janeiro são consumidas em quase todo o mundo. Não ouvimos falar de pessoas (traficantes ou inocentes) morrendo feito moscas nas ruas de Nova York, de Buenos Aires, de Londres, de Lisboa ou de qualquer cidade civilizada. Nesses países essas drogas também são proibidas e lá a polícia também reprime o tráfico e consumo. Por que só no Rio de Janeiro isso é tão trágico?
Temos bons sociólogos, historiadores, nossos políticos estão sempre viajando para outros países, especialistas em segurança pública estão sempre aparecendo na mídia para comentar suas opiniões sobre o assunto e nada muda. Pessoas inocentes continuam morrendo nas ruas do Rio.
Durante muitos anos criou-se uma cultura do medo das drogas sem uma compreensão sobre o assunto. Dizia-se que drogas eram perigosas, divulgava-se publicamente essa noção sem maiores esclarecimentos, e pronto. Talvez na cultura brasileira ainda persista um ranço do medo ilógico, do medo sem explicação. Um exemplo afastado desse tema pode ilustrar esse fato: ainda hoje, mais de 20 anos depois de ter terminado uma ditadura militar de extrema direita que amordaçou o povo por 20 anos, ainda encontramos pessoas que “xingam” outras pessoas de “comunista”, de “subversivo” etc. Será por acaso? Será um direitismo orgânico? atávico? Provavelmente não. Talvez seja o hábito de sentir medo sem questionar suas razões, sem procurar conhecer melhor sobre o assunto, sem perguntar a opinião do vizinho, do colega de trabalho.
Quanto a esse medo das drogas, observo, como médico, que se passa algo semelhante. Às vezes ainda ouço no consultório, pais que têm filhos envolvidos com drogas, ou pais que simplesmente têm medo que isso aconteça com seus filhos, repetirem como um mantra: “não conheço essas coisas, nunca conheci, nem quero conhecer, não sei a cor nem o cheiro que isso tem, Deus me livre!”. Isso retrata um medo irracional mas ao mesmo tempo mostra que, pelo fato dessas pessoas estarem ideologicamente contaminadas pela idéias de que tudo que se relaciona com as drogas é perigoso e marginal, acreditam que não conhecendo, não estarão se envolvendo. E por isso mesmo, nem discutem o assunto. É proibido e pronto. Curiosamente, muitas dessas pessoas não se opõem, por exemplo, a ter uma arma em casa (supostamente, um artefato que deveria estar ligado somente àqueles que por qualquer razão profissional precisam disso). Outras dessas pessoas, também curiosamente, não tem nenhuma opinião negativa quanto a voltarem de uma festa guiando seu carro depois de terem tomado uns drinques. Algumas também são fumantes de tabaco, mas... “sabe como é, doutor, é tão difícil largar esse vício...”.
Enquanto isso, a uma hora dessas, uma criança de seis anos pode estar caída morta numa rua do Rio de Janeiro com uma bala perdida que encontrou sua cabecinha em seu trajeto. Enquanto isso a sociedade continua acreditando que viveríamos num mundo mais perfeito sem os perigosos traficantes e suas drogas destruidoras de lares.
Um pouco mais de coerência nessa discussão poderia poupar algumas vidas inocentes.
sábado, 28 de abril de 2007
ENTÃO VOCÊ PENSA QUE É HUMANO?
Foi publicada recentemente no Brasil, pela Companhia das Letras, a tradução do livro ENTÃO VOCÊ PENSA QUE É HUMANO?, do historiador inglês Felipe Fernández-Armesto. Trata-se de uma curiosa abordagem sobre o significado da condição humana sob o olhar da biologia, da antropologia, da filosofia e outras ciências dedicadas ao estudo do ser humano. A conclusão é que a distância que nos separa dos outros primatas não é tão grande quanto gostamos de imaginar. Na verdade, quando são aplicados parâmetros científicos rigorosos que busquem estabelecer diferenças significativas de condutas, descobrimos que nossos critérios servem para revelar muito mais semelhanças do que diferenças entre nós e outros primatas nos modos de agir e de nos relacionarmos com nosso grupo e com a natureza . É interessante pensarmos que até bem pouco tempo atrás, no período do iluminismo, por exemplo, muitos pensadores, entre eles Rousseau, imaginavam que certos macacos eram variações do humano e que eram de certa forma humanos, também. É um livro interessante, escrito com algum humor sem deixar de lado o rigor histórico e gostoso de ler.
quarta-feira, 25 de abril de 2007
O próximo encontro do Café Psicanálise (reuniões quintas feiras das 19h30m às 21h30m no Opus Centro Cultural), dia 26 de abril, irá tratar do tema DESEJO. Uma das forças mais ativas no ser humano (a única força, talvez), conceito estabelecido por Freud, o DESEJO é algo que jamais pode ser satisfeito e jamais deixa de existir enquanto existe vida. Um conceito difícil de ser apreendido e desconhecido antes da existência da psicanálise. O homem é um animal desejante, antes de ser qualquer coisa. Organiza seu aparelho psíquico em torno de acordos que precisa fazer consigo mesmo para viver em sociedade. O grupo social humano estabelece desde o nascimento uma regra com o indivíduo que acaba chegar: "você não poderá ter tudo o que desejar, mas apenas algumas coisas. Provavelmente, por mais coisas que você obtenha ao longo da vida, sempre achará que é pouco, mas procure se contentar, porque é assim mesmo." E assim começa a vida humana. Afinal, a vida, como dizia Shakespeare, "é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria e que não significa nada". Mas não sejamos tão pessimistas, vamos ao café do desejo discutir isso.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
MENTE E CORPO
A interação entre mente e corpo é um tema que ainda vai ser discutido por muito tempo porque envolve conceitos que vêm de áreas bem diferentes como a medicina, a filosofia, a psicologia, a religião e até mesmo a forma como cada indivíduo de uma mesma área entende essa questão. Devemos lembrar que Renè Descartes, o pensador francês que estabeleceu o formato como hoje se pratica a ciência em geral, deu uma imensa contribuição para a maioria das atividades científicas mas no estudo de corpo/mente não podemos aplicar as mesmas regras. É graças ao cartesianismo que ainda hoje se pensa na mente separada do corpo como se fossem duas entidades distintas. Não é por acaso que alguns colegas médicos ainda dizem para os seus pacientes: "isto não é nada, é psicológico", quando se vêem diante de pacientes que apresentam sintomas físicos difíceis de serem explicados pelos métodos convencionais da medicina. Quer dizer, ainda entendem o psicológico (ou emocional) como um "nada".
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