domingo, 11 de novembro de 2007

COMO NASCE UM PARADIGMA

Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Macacos odeiam água. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancada. Passado mais algum tempo, mais nenhum macaco subia a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que lhe bateram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo primeiro substituto participado, com entusiasmo, na surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam a bater naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles por que batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: " Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui... "

"É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO"(Albert Einstein)

4 comentários:

Luiz Leitão da Cunha disse...

É isso mesmo. Vc leu o caderno 2 de hoje, com o comentário sobre 3 livros que contestam as pregações religiosas, especialmente as católicas? É um tanto óbvia a argumentação, não tem nada de brilhante, mas sempre ajuda a clarear.

Agora, uma coisinha sobre medicamentos:

http://detudoblogue.blogspot.com/2007/11/o-perigo-do-made-in-china.html

Anônimo disse...

Onde falta um "por que", "para que" e um "por quem", tudo é possível, até mesmo o inumano. Abção Gerson, e sempre parabéns pela dedicação na tentativa cotidiana, seja na teoria ou na práxis, em formular as perguntas acima.

Gerson Rangel Brasil disse...

Luiz, tenho me interessado por esses livros recém publicados discutindo as religiões e seu sentido no mundo de hoje. É um tema espinhoso pois na minha opinião existe uma grande diferença entre fé e enganação comercial. Acho que existem pessoas que têm uma fé sincera e legítima que as guia em seu caminho ético pela vida mas também existem aqueles que se valem da boa fé de ingênuos para obterem benefícios. Mas é um tema fascinante.

Luiz Leitão da Cunha disse...

Gerson,

Então, aqui vai colado o artigo do Renato Janine sobre os 3 livros. de fato, existem a boa fé e a má-fé, literalmente falando, e a expressão coloquial certamente tem base nisso.

Deus ainda está vivo 11.11.7
Os autores Christopher Hitchens, Gary Wills e Sam Harris lançam publicações
em que discutem a relação do homem contemporâneo com a crença religiosa
Renato Janine Ribeiro
Saíram há pouco tempo três livros dedicados à crença - ou descrença - em Deus. Dois são manifestos em favor do ateísmo, contrários a qualquer religião: Cartas a Uma Nação Cristã, de Sam Harris, e Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens. O terceiro, O Que Jesus Quis Dizer, de Gary Wills, é uma interpretação de Jesus Cristo. Os três foram escritos por intelectuais que se situam na esquerda norte-americana ou perto dela. Todos merecem ser lidos por quem tenha interesse na religião, seja a favor ou contra. Não é sempre que temos obras inteligentes assim diferentes.

Christopher Hitchens, britânico radicado em Washington, ex-trotskista, célebre por suas denúncias contra Kissinger e Madre Teresa de Calcutá (“ela não gostava dos pobres. Gostava da pobreza”), perdeu amigos na esquerda tradicional quando apoiou a invasão do Iraque em 2003, porque a seu ver ela permitia depor o genocida Saddam Hussein. Nem por isso se tornou partidário de Bush. Ele é um polemista inteligente, espécie rara no Brasil. Seu livro - Deus Não É Grande (Ediouro, 304 págs., R$ 44) - é um libelo contra a fé religiosa. Não critica só os extremistas de hoje, dos xiitas aos fundamentalistas cristãos: condena também os cristãos moderados, como bispos que combatem a pesquisa com células-tronco ou o uso de preservativos. Afirma que as três grandes religiões monoteístas, reveladas a camponeses incultos, apostam na ignorância e não na inteligência das pessoas. Porque Hitchens é um iluminista. Sua crítica à religião atinge até o seu papel moral: ela não serve, diz ele, nem para melhorar as pessoas, porque multidões de ateus não costumam matar quem delas discorda.

Sam Harris, na sua Carta a Uma Nação Cristã (Companhia das Letras, 96 págs., R$ 29), deixa claro que escreve para um fundamentalista, da direita cristã que vota em Bush. Esse é um fenômeno típico dos Estados Unidos, único país desenvolvido a acreditar em ampla maioria que o mundo foi criado por Deus em sete dias, a adotar maciçamente a pena de morte e a ter níveis de criminalidade bem mais altos que as sociedades laicas, agnósticas ou quase atéias da Europa Ocidental.

São livros corajosos. Todo crente deveria lê-los. Sempre que possível, o importante não é ler quem confirma você nas suas convicções, mas quem as contesta; e meditar se não estamos errados e no quê. Não é fácil um cristão, judeu ou muçulmano defrontar-se com a crueldade de Cristo, Jeová ou Alá. Há passagens assustadoras nas Escrituras. Como pode um Deus minimamente bom mandar a um pai que mate o próprio filho, em sacrifício? Como pode Abraão aceitar essa ordem e fazer tudo para cumpri-la? Como podem gerações de fiéis - judeus, cristãos e muçulmanos - celebrar esse Deus, em vez de denunciar sua maldade ou pelo menos o sadismo de assim testar um pai que iria degolar a luz de seus olhos, o encanto de sua velhice, a semente de sua posteridade? Formular essas perguntas é pôr-se na posição do menino que descobre que o rei está nu. Desse Deus se pode dizer: ou é onipotente, e então não é justo ou bom - ou é bom, mas não é onipotente. Afirmar que Deus tudo pode e que é justo e bom conflita com a experiência, com a razão e com as próprias Escrituras.

Mas é esse tipo de passagem que desperta a atenção do único autor, dos três, a acreditar em Deus e mais precisamente em Jesus Cristo. Gary Wills é um intelectual, o mais acadêmico de nossa trinca, e parte do que podemos chamar o escândalo de Jesus. Certas ações e ditos de Jesus, a seu ver, só permitem dizer ou que ele foi um homem horrível ou que foi Deus. Em O Que Jesus Quis Dizer (Rocco, 152 págs., R$ 25), Wills não nega o caráter chocante do que Cristo dizia. Mas, se Jesus foi Deus, tudo muda de sentido. E Wills propõe um Jesus marginal, impuro, escandaloso.

Wills também é contra o fundamentalismo. Talvez a única passagem engraçada de seu livro seja quando transcreve uma carta que circulou pela internet, em que alguém escreve a um pregador que condena o homossexualismo com base na Bíblia. O missivista concorda e pergunta, em tom supostamente sério: como a Bíblia proíbe tomar escravos em seu próprio povo, mas permite nas nações vizinhas, então posso escravizar mexicanos e canadenses? Ou só mexicanos? Por que não canadenses? Como a Bíblia proíbe o contato com mulheres menstruadas, por estarem impuras, antes de estender a mão a uma desconhecida devo perguntar se está no período menstrual? E segue desfiando enorme número de interditos das Escrituras, que, para nós, não fazem sentido.

Mas essas proibições do Antigo Testamento, revogadas por Jesus, não reduzem o absurdo do que diz Cristo. Várias vezes desrespeita a mãe, por exemplo. Mas, se é Deus, todo o sentido de sua (Sua?) ação passa a ser o de romper com as barreiras que separam o puro do impuro. Há muita coisa incompreensível, mas não há mais Abraão a ponto de sacrificar Isaac. A grande questão é a obsessão judaica em preservar a pureza, ou a moderna obsessão fundamentalista de punir os impuros.

Ora, o que Cristo recusa é a própria idéia de pureza e todo o formalismo a ela associado. Cristo gosta dos “impuros”. Freqüenta gente malquista, até prostitutas. Desrespeita os interditos. Neles, vê hipocrisia. Sua religião reside no coração, no espírito, não na letra.

O livro de Wills choca tanto como os outros. Evidentemente, discorda dos ateus, mas na verdade nem menciona o ateísmo. Se seu Cristo é fora dos cânones, um marginal, se Wills tem simpatia pelas comunidades eclesiais de base, também realça que Cristo não tinha projeto político. Ansiava pelo outro mundo, pela morada do Pai, cujo advento, à época, parecia iminente. Ele teria empatia com os sem-terra, os sem-teto, mas sua saída não seria lutar para terem terra e teto, e sim para se prepararem para a vida eterna - logo.
Virtude maior de uma obra é ter condão de nos transformar
Três escritores expõem convicções e dúvidas, dando oportunidade a pessoas de credos diferentes repensarem suas idéias
Renato Janine Ribeiro
Dá para propor um balanço de livros tão díspares? Não me atrevo a dizer quem tem razão, porque não sei. Harris exagera, quando diz que a teologia dos fundamentalistas é mais séria que a dos cristãos moderados: na verdade, como os primeiros são alvos mais fáceis, ele os prefere, para melhor refutá-los. Hitchens, para dizer que o ateísmo nunca fez mal, tem de chamar o comunismo de religião (no que, aliás, até pode estar certo: O Deus Fracassado, coletânea de depoimentos de ex-comunistas, entre eles Arthur Koestler, foi um importante balanço do comunismo no poder). E Wills talvez avance o sinal ao converter em metáforas ditos bíblicos que são inaceitáveis. Mas são três obras a recomendar.

Precisamos, quando lemos autores em conflito, dar razão a um deles? Não é melhor sustentar o desacordo, aprofundá-lo? Wills está na linha de Kierkegaard (embora não o cite), que em Temor e Tremor analisou a quase-morte de Isaac nas mãos do pai. Sabe que Deus está no limite do que podemos apreender. Sua lógica não é a nossa. “Toda beleza é terrível”, disse o poeta. Deus é terrível. O que nos pede não é pouco. Não é mais matar o filho. É abrir mão das posses. Ama os excluídos, os pobres (mais do que a pobreza), e ainda assim não é militante político. Wills celebra um Deus apocalíptico (sim, porque Cristo viveu na iminência do fim do mundo e do Juízo Final) - e um Deus sem os preconceitos que nossos dois ateus leram nele e são mais do Antigo que do Novo Testamento. Como reza uma expressão que ele cita, não é que o cristianismo deu errado; é que nunca foi tentado.

Diálogo de surdos? Porque dizer que o cristianismo nunca foi tentado, o que absolve Cristo da Inquisição, da Igreja com suas pompas, é o mesmo que absolver o liberalismo da injustiça social e o comunismo da opressão: porque podemos dizer que cada um deles nunca foi aplicado em sua forma “pura”. No entanto, os três triunfaram, exerceram poder, violaram o que prometeram. Mesmo assim, essas belas teorias e as belas religiões deixaram mensagens que iam além de tudo o que fizeram. Podemos passar dias denunciando os crimes da religião e das doutrinas políticas - e outros dias mostrando como elas mesmas denunciaram os crimes cometidos em seu nome. O discurso delas é mentiroso ou pelo menos ilusório? Ou o seu discurso tem um poder de ir além da prática, de nos permitir criticar um mundo sempre em atraso em relação aos ideais?

Mas, se chegamos a um certo círculo, não quer dizer que o diálogo seja de surdos. É um diálogo difícil, entre pessoas que sustentam credos opostos. Mas não deixa de ser um início importante. Nossos três autores denunciam Bush; defendem os direitos dos homossexuais e dos perseguidos; mas um, para tanto, invoca um Deus que se fez perseguido, enquanto os outros lembram como a Igreja por Ele criada foi uma das maiores perseguidoras da História. Isso dá matéria a discussão, o que é bom. Melhor até, dá matéria para mudarmos de idéias. O fiel inteligente que ler um dos ateus, ou o ateu sábio que ler Wills, não sairá igual a como entrou. Terá de repensar-se. Ora, não há maior elogio possível a uma obra cultural: dizer que ela tem o condão de nos transformar.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo. É autor de A Sociedade Contra o Social: O Alto Custo da Vida Pública no Brasil e A Universidade e a Vida Atual