terça-feira, 6 de outubro de 2009

Abraão e Isaque
Crônica de Luis Fernando Veríssimo. É para pensar. E pensar no complexo de Édipo.

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaque, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera.
E edificou Abraão ali um altar e amarrou a Isaque e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho. Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus Abraão, Abraão, não estenda tua mão sobre Isaque e não lhe faça mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto.
E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera a voz de Deus.
Muitos anos depois:
– Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.
– Você era um menino...
– Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água...
– Você era um menino...
– Lembro de tudo. Lembro dos trovões.
– Era a voz do anjo, me falando dos céus.
– Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.
– Meu filho...
– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.
– Você era um menino.
– Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena. Um pai imolando um filho!
– Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu. – Um horror.
– Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.
– Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.
– Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.
– Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.
– Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu meus olhos cheios d’água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.
– Mas o fio do cutelo encostou na minha garganta.
– Eu não o matei! – Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.
– Meu filho... – Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.
– O que eu sei?
– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.
– Ele estava me testando.
– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.
– Você era apenas um menino...
– Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos. E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.
– Era o anjo do Senhor falando comigo.
– Eram trovões.
– Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.
– Mais razão para temê-lo tenho eu, meu pai, que senti o fio do cutelo na garganta.
– Na origem de todos os povos tem uma cerimônia de sangue.
– Então na origem de todos os povos tem uma abominação.
– Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?
– Por todos os tempos, pai.
Com esta canção de Violeta Parra, Mercedes Soza ficou conhecida.

GRACIAS A LA VIDA

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Mal-Estar na Civilização é o texto magnífico onde Freud analisa os impasses decorrentes do fato de o homem ter saído da natureza e ingressado no campo da cultura. Ali ele afirma ser necessário conter os desejos agressivos e sexuais para tornar possível a vida em comum. Como conciliar isso com o objetivo terapêutico maior da psicanálise que propõe justamente combater a repressão e tornar conscientes os conteúdos agressivos e sexuais que ela afastava da consciência? Essa aparente contradição se desfaz quando lembramos que a superação da repressão e a integração no psiquismo dos conteúdos até então reprimidos não deve ser confundida com a realização concreta destes desejos na realidade. O levantar da repressão dá ao sujeito um maior conhecimento sobre si mesmo, fortalece seu ego e faz com que ele deixe de atribuir à outra pessoa (via projeção) desejos e fantasias que são de sua própria lavra. Cabe ao sujeito, agora de posse de seus desejos antes reprimidos, avaliar a adequação e a oportunidade de pô-los em prática ou reconhecer que tem de renunciá-los de uma vez por todas. Isso implica o reconhecimento da lei e a aceitação de limites, um abandono do narcisismo onipotente infantil e uma aceitação do princípio da realidade.O fato de Freud considerar a civilização como valioso apanágio da humanidade a ser protegido contra a barbárie sempre à espreita não impede que a psicanálise exerça sobre ela uma crítica sistemática, o que a coloca numa posição muitas vezes contrária ao consenso geral, despertando resistências e hostilidades. No tempos iniciais, Freud e a psicanálise se opunham à hipocrisia com a que a sociedade tratava a sexualidade, reprimindo-a maciçamente, fazendo-a manifestar-se no corpo contorcido, paralisado, convulsivo da histérica. A psicanálise ajudou a mudar este panorama e o que vemos hoje em dia é o oposto do que ocorria no tempo de Freud. Ao contrário da censura, da repressão e do impedimento superegoico contra a sexualidade, prevalece agora a imposição do gozo ininterrupto, a ordem é gozar. É exigido de todos uma vida sexual intensa e variada, sendo discriminados aqueles que não cumprem com tal imperativo. A sexualidade se exibe às escâncaras nos meios de comunicação, que ininterruptamente confundem o público e o privado. Enquanto os anseios eróticos eram vigiados e reprimidos na era vitoriana, agora o mercado está atento a todo e qualquer desejo para transformá-lo num objeto de consumo, oferecido pela enganosa publicidade como o passaporte para a felicidade instantânea. O que aconteceu? Teriam desaparecido os impedimentos e a repressão? É claro que não. A psicanálise entende que a repressão se desloca para outras áreas, por exemplo, impedindo a manifestação da genuína intimidade afetiva. Ao apontar as falácias da sociedade do consumo, o vazio decorrente do narcisismo desenfreado, a negação da falta e da incompletude, a liberdade equivocada que leva às fobias e ataques de pânico, a psicanálise, mais uma vez. está na contramão. No próprio campo terapêutico, o espírito do tempo volta a ficar contra a psicanálise. Ela é desmerecida como algo ultrapassado pela neurociência (que reduz o funcionamento mental ao equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais) e pelo cognitivismo (teoria psicológica herdeira do behaviorismo, baseada em processos cognitivos conscientes, que ignora - consequentemente - o Inconsciente freudiano, e tenta aproximar o funcionamento da mente ao processamento de dados por um computador).

domingo, 13 de setembro de 2009

Tem nos servido de leitura de apoio os livros de Luiz Alfredo Garcia Rosa. Em nosso último encontro falei do livro O MAL RADICAL EM FREUD, no qual, em seus capítulos iniciais o autor procura fazer uma arqueologia do pensamento freudiano partindo do pensamento grego clássico e vinculando o surgimento da palavra como definidora do que é o homem. A palavra, ou a linguagem, melhor dizendo, é o que proporciona a emergência do símbolo, o que caracteriza o pensamento humano como essencialmente simbólico. Tendo se descolado da natureza (isto é, deixando de ser um animal "natural" como os outros animais), o homem foi lançado numa errância, ou seja, seus desejos não são mais satisfeitos com os objetos naturais, seus desejos passam a pertencer ao mundo simbólico e consequentemente passam a ser irrealizáveis, em sua maioria. Daí por diante, apenas uma satisfação parcial passou a ser possível. Tendo perdido sua suposta organização natural, o corpo, enquanto corpo material, perdeu sua forma. Rreduzido a uma matéria sem forma, teve que constituir, na sua articulação com o mundo, uma nova forma, uma nova anatomia e uma nova fisiologia.
Dizer que o corpo foi reduzido a uma matéiria sem forma, é afirmar que a partir da linguagem, a suposta ordem natural que ele tinha em si mesmo, foi perdida e reduzida, daí por diante, a uma ordem mítica. Tomar a linguagem como ponto de partida, significa recusar a ordem prévia que o naturalismo impõe ao mundo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prossegue nesta terça feira, 8 de setembro, às 19h30m o CAFÉ PSICANÁLISE. A proposta é aproximar pessoas, com diversos interesses profissionais e pessoais, em torno de um bate papo em que se tratem de temas atuais utilizando o suporte teórico da psicanálise e dos saberes correlatos. O objetivo não é um didatismo acadêmico mas sim um olhar crítico, aberto e contemporâneo sobre fatos que nos causam inquietação e que apontam para os desafios dos chamados "tempos modernos". Para que não percamos de vista uma certa sequência lógica, propus no encontro anterior que observássemos um arco histórico que abarca desde os pensadores gregos clássicos até chegarmos a idade moderna, antes do advento da PSICANÁLISE freudiana propriamente dita. Chamamos o período imediatamente anterior à invenção freudiana, de pré-história da psicanálise, apenas para caracterizar que a teoria do inconsciente não nasceu pronta para ser usada, mas sim, que foi antecedida por uma linha evolutiva na qual o conceito de homem moderno vai se constituindo pouco a pouco. O homem moderno é aquele que se afasta do medo do transcendente (muito forte a partir da idade média) e ao mesmo tempo ainda não sabe como lidar com o sentimento de solidão diante do vazio da existência atual. Afastados os medos ancestrais restou uma crença questionável na ciência, como se esta fosse capaz de mais cedo ou mais tarde nos oferecer respostas para todas as nossas dúvidas.
Iremos continuar amanhã nosso bate papo sobre esses e outros temas.

sábado, 29 de agosto de 2009

CAFÉ PSICANÁLISE
GRUPO DE ESTUDOS DE PSICANÁLISE
Tive que mudar o dia do Grupo de Estudos para as terças feiras. As reuniões serão às terças feiras, das 19:30h às 21h. Iniciaremos dia 02 de setembro. Estudaremos textos fundamentais das obra de Freud, discutiremos casos clínicos, a teoria e a técnica da psicanálise. Além dos textos psicanalíticos e afins, contaremos com o apoio de textos da literatura e de filmes com questões relacionadas à psicanálise.
1º encontro dia 02 de setembro, 19:30h – A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE
Participação em cada encontro: R$10,00
Local: Rua Quintiliano Machado de Barros, 142, Parque Salutaris
Telefones para contatos (Gerson):
8847 7393
9969 9246
2255 2715

M E M Ó R I A
olhos, tato,
pelos, dentes,
pele
o som de uma palavra
o encantamento dos dias
a espera ansiosa
o amor apressado
as mãos sedentas
memória da noite
chuva e lua
caminhões
olhos pasmos
vasto espaço
selva de livros
as coisas medidas pelo avesso
AQUI
aqui
assim
é além
depois
passa
e volta
como
tudo
devia
voltar
na
vida
mas
não
CAFÉ PSICANÁLISE
GRUPO DE ESTUDOS DE PSICANÁLISE
Tive que mudar o dia do Grupo de Estudos para as terças feiras. As reuniões serão às terças feiras, das 19:30h às 21h. Iniciaremos dia 02 de setembro. Estudaremos textos fundamentais das obra de Freud, discutiremos casos clínicos, a teoria e a técnica da psicanálise. Além dos textos psicanalíticos e afins, contaremos com o apoio de textos da literatura e de filmes com questões relacionadas à psicanálise.
1º encontro dia 02 de setembro, 19:30h – A PRÉ-HISTÓRIA DA PSICANÁLISE
Participação em cada encontro: R$10,00
Local: Rua Quintiliano Machado de Barros, 142, Parque Salutaris
Telefones para contatos (Gerson):
8847 7393
9969 9246
2255 2715

domingo, 16 de agosto de 2009

Ouvindo:

Funk como le gusta.
Banda paulista interessantíssima pelo balanço. Pra quem gosta de festa dançante, mas dá pra ouvir no carro também. Funk com levada latina. Eu gosto. Gravei CD em que aparecem convidados como Sandra de Sá e Paula Lima.

Banda Mantiqueira.
Outra banda paulista. Custei pra achar. Não se acham CDs dela nas lojas. Aliás, não se acham mais lojas de CDs.
Ouvindo:
Noriel Vilela.
Redescubro, graças à Internet essa figura. Indescritível. O que dizer? Sambista carioca à moda antiga, ex-componente dos Cantores de Ébano lá pelos idos de 1950. Voz grave. Um de seus sucessos foi revivido pela banda paulista (ótimo suíngue) FUNK COMO LE GUSTA, o samba 16 toneladas. No mais, o Vilela misturava samba tradicional com pontos de macumba. Dava uma mistura hilária e interessante.
Ouvindo:
Eliane Elias.
Brasileira, paulistana, pianista, mora nos EUA há trocentos anos, casada com o saxofonista de jazz Michael Brecker. Ótimos CDs. Num deles, um dos mais populares, ela canta e toca standards como Call Me, Photograph, Baubles, Bangles And Beans. Tive que gravar uns cinco ou seis desses para os amigos que ouviram aqui em casa e se apaixonaram. Uma amiga teve o dela roubado na clínica no dia seguinte e tive que gravar mais um.
Ouvindo:
Rosa Passos.
Baiana, cidadã do mundo. Desconhecida no Brasil. Reverenciada fora daqui. Os CDs: quase todos muito bons. Aliás, todos muito bons. O “quase” é por conta de gravações dela de músicas já muito manjadas da bossa nova. O Brasil é tão rico musicalmente que podemos nos dar ao verdadeiro luxo de dizer: “ih, não, CHEGA DE SAUDADE, de novo, não”. Vale a pena conhecer. Ela tem uma voz limitada, minimalista. É chamada de João Gilberto de saias. O título não lhe faz justiça. Ela tem personalidade e comparações como essa parecem que querem ser um elogio mas limitam. Ela tem um bom gosto enorme e um repertório super brasileiro, pontuado por uma e outra canção internacional sempre bem escolhida, como S’wonderful ou a francesa quase esquecida Que Reste-t-il de nos Amours. Baixei tudo na Internet. Por um pequeno instante fico pensando na questão dos direitos autorais. Não sei o que concluir. É um dos desafios éticos do nosso tempo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A NOITE

Ela vem
sorrateira e silenciosa
como um amante desertor

Ela vem devagar
como olhos de camaleão
espreitando a presa

Ela vem enquanto escrevo
e se agita assim
nas minhas mãos