quarta-feira, 25 de julho de 2007

UM DESERTO

UM DESERTO

árido sudário
partilha dos ossos
expostos à visitação
dos ventos

vigília do tempo
secura do silêncio
recusa das palavras
inventário de feridas

domingo, 15 de julho de 2007

TEORIAS DA ALMA por LYA LUFT

TEORIAS DA ALMA
(Lya Luft)

Quanto mais recursos temos no campo da psicologia e dos novos conhecimentos sobre as relações humanas, mais inseguros estamos.
Quanto mais civilizados, menos naturais somos. Na época em que mais se fala em natureza estamos mais distantes dela. Ser natural passou a não ser natural.
Assim é com criar filhos. Perplexos diante de mil teorias que nos batem à porta em toda a mídia, e a proliferação de consultórios de todo tipo de terapias (pelas razões mais singulares), estamos nos convencendo de que ter e criar filho não é lá muito natural.
Passamos do extremo antigo de achar que criança não pensa ao outro extremo: criança é complicação. Mil receitas de como tratar do bebê ao adolescente atormentam gerações de pais aflitos. A aflição não é boa conselheira. Afobado, aliás, a gente ama bem mal...
Esquecemos o melhor mestre: o bom senso. A escuta do que temos em nosso interior, aquela coisa antiquada chamada intuição, lembram? Claro que para isso precisamos ter bom senso e ter algo dentro de nós para ser escutado.
Ou cada vez que o bebê chorar desafinado, a criança ficar menos ativa (em geral ela está simplesmente pensando, querendo que finalmente a deixem um pouco quieta), vamos correndo procurar um especialista. Para que ele nos ensine a segurar o bebê, dar a mamadeira, olhar no olho, aconchegar no peito a criança nossa de cada dia.
É que somos, além de aflitos, desorientados. Falta-nos o hábito de observar e de refletir. Preferimos evitar e espelho que faz olhar para dentro de nós. Cada vez mais amadurecemos tarde ou mal. Somos crianças tendo crianças.
Não gostamos de refletir e decidir. “Se a gente parar para pensar, tudo desmorona”, me disse alguém.
Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar.
Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado – e um recado – tranqüilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios.
Ser natural está em crise grave.

(Perdas & Ganhos - Lya Luft, Editora Record)

EM QUE ENFIM

Em quê
enfim
acaba
o
amor?

no osso
da
saudade

ou no oco
do coração?

segunda-feira, 2 de julho de 2007

ÁLCOOIS

ÁLCOOIS

Depois
que tudo o mais me cansa
de escambo em escambo
troco as rotas e
trôpego
desdenho as quedas e
em piruetas
avanço bêbado.