Há cerca de dois meses eu estava numa livraria em Juiz de Fora, cujo dono tornou-se meu amigo e é um livreiro à maneira antiga, daqueles que sabem tudo, parece que já leram todos os livros já escritos e encontra nas prateleiras da loja qualquer coisa que lá existir em questão de segundos. É apreciador de música clássica, é discreto, fala baixo parecendo que está pedindo desculpas. Da última vez em que estive lá, me presenteou com dois livros escritos pelo pai dele que contam passagens da época colonial nas Minas Gerais.
Nessa visita à Livraria Liberdade, numa passagem pela estante de filosofia, Marcos – esse é o nome do livreiro – tira da estante um livro, me mostra e diz que é um ótimo livro. Enfático, afirma que talvez seja um dos melhores livros que ele já lera. Corajoso em afirmar isso. Afinal, todo grande leitor de livros como ele e eu, tem grande dificuldade em dizer qual ou quais os melhores livros já lidos. Fico curioso. Não conheço o autor. Marcos percebe minha dúvida. Diz que eu posso levar o livro e que se eu não gostar ele aceita que eu o devolva. “Opa”, penso, “agora ele está se arriscando num salto mortal sem rede”. Decido que diante de uma recomendação dessas não tenho saída. Levo o livro. E Marcos tinha razão. O livro é A Negação da Morte, de Ernest Becker. O autor é um antropólogo americano, já morto. Ele faz um longo ensaio sobre a leitura da morte pela visão da psicanálise. O medo e fascínio do ser humano diante da finitude. O grande dilema humano: saber-se mortal e ter um apego desmesurado à vida. A crença íntima que cada um de nós tem de que no fundo, no fundo, somos imortais. Todos irão morrer um dia; eu, não. Assim pensamos nós, pobres humanos. Pobres humanos, condenados a sabermos que temos um fim; um dia tudo acaba inexoravelmente. Desde o começo dos tempos filósofos e loucos pensam sobre esse tema e desde sempre convivemos com isso, com essa idéia tão aterrorizante: somos finitos, somos mortais, a biologia é nossa sina. Temos uma alma, um espírito, uma psique, seja lá que nome tenha, que se acredita imortal, mas temos uma maldição biológica que nega essa imortalidade.
E o que fazemos? Fazemos tudo o que fazemos. Amamos, gozamos, deixamos uma prole espalhada pelo mundo. Sempre esperamos que nossos filhos nos sucedam e repitam tudo o que fizemos. Que amem, que gozem, que perpetuem a espécie. E o tempo todo, a espada do tempo pendendo sobre nossas cabeças.
Sabemos dessas coisas o tempo todo, mas é bom que alguém escreva bem sobre isso. E é disso que trata esse livro. O Marcos tinha razão. A Negação da Morte passou a ser para mim, também, um dos melhores livros. E nem o acabei ainda.
3 comentários:
Durante muito tempo, tive medo, pavor da morte. Influência de empregados da fazenda, que contavam estórias de medo, dos quadrinhos de vampiros, de Nayara, a a filha do Drácula (lembra?). minha mãe e muita gente da geração dela se referia, e ainda o faz, ao câncer como "aquela doença", porque era morte certa.
estou lendo um livro do Marcelo Gleiser, O fim da Terra e do Céu, onde ele fala sobre as fantasias dos antigos, até hoje, dos símbolos apocalípticos, da necessidade de símbolos religiosos para podermos enfrentar a dura realidade da finitude. É demais para o humano, tão onipotente e arrogante, ter de aceitar o fim.
Ora, até o universo tem seus dias contados, por que não nós?
Creio que é por isso que se nega a morte,é, como vc disse, coisa para os outros, nem pensar nisso. da mesma forma que pensam que acidente é só pros outros, que nunca vai acontecer conosco.
Mas a morte é tão democrática quanto inesperada, nos preocupamos em afastar riscos e uma mulher morre em SP, tragada pelo buraco do Metrô, enquanto fazia um prosaico e seguro passeio pelo bairro. Ou, como há pouco tempo, no Rio, a laje de um hotel despencou sobre duas transeuntes.
Estranho como as pessoas ficam arasadas com um acidente de avião, um crime no bairro, enquanto todos os dias, morrem centenas de fome, ou no Iraque. Eu mesmo já nem leio a respeito de matanças no Iraque, pois são diárias, genéricas, previsíveis e, sobretudo, distantes.
De fato Gerson, a morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm mais problemas. Belo texto seu, Gerson, cativante do início ao fim, prende o leitor, traços de um psicanalista escritor! Parabéns!
A finitude nos faz mover-se, afinal, EU SOU O QUE ME FALTA...
Forte abraço e obrigado pelo texto! Roberto Wagner
Caro Gerson, falar em morte é bastante esquisito e tão natural ao mesmo tempo. Como questionar? A morte é inquestionável, não tem escolha , não tem desejo, nem opção, é uma certeza.
Acho esquisito quando penso a vida enquanto matéria, emoção, que são reais, mas de repente, nada, significamos nada. Ou as pessoas espíritas tem alguma razão?
Pelo menos, tenho uma grande certeza, vivo, e enquanto isso, sou feliz, vejo a imensidade da beleza da natureza, ouço os barulhos mágicos do ambiente natural e me extasio com o contato físico.
Obrigada por este espaço.
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