Segundo informação divulgada na imprensa, no Rio de Janeiro, do início do ano até abril de 2007 morreram 123 pessoas vítimas de balas perdidas em tiroteios entre a polícia e traficantes de drogas ou entre traficantes de quadrilhas rivais. Dá uma média de 30 pessoas mortas por mês; uma por dia. Ainda segundo o noticiário, essas 123 pessoas seriam inocentes, isto é, transeuntes baleados sem terem nada a ver com os envolvidos diretamente no confronto. São crianças indo para a escola, trabalhadores, donas de casa. Sem contar os feridos. Sem contar os envolvidos nos tiroteios, policiais e criminosos. O número é alarmante sob qualquer ponto de vista, sendo mais grave o fato de que não estamos vivendo nenhuma guerra civil oficial e que o Rio de Janeiro é acima de tudo uma cidade turística, de fama mundial. Diante disso, pergunto: se o tráfico de drogas é responsável por essa tragédia e se tudo se deve ao fato das drogas serem proibidas, não é urgente acelerarmos a discussão sobre a ilegalidade das drogas? A quem interessa a proibição de algumas drogas e de outras não? Os que são contrários ao livre acesso das pessoas a drogas como a maconha e a cocaína estão nos protegendo exatamente de que? O que eles têm a dizer sobre o álcool e o tabaco serem vendidos livremente e serem causadores de acidentes mortais e doenças igualmente mortais ou incapacitantes?
Sabemos que essas questões, por mais evidentes que sejam, para serem discutidas em fóruns públicos como a Câmara dos Deputados e no Senado levam muitos anos e esbarram em interesses totalmente obscuros. Enquanto isso, morrem inocentes.
Haverá alguma estatística médica disponível sobre o número de mortos na mesma cidade do Rio de Janeiro por conseqüência do uso de drogas proibidas? Quantas pessoas morrem por mês porque usaram cocaína ou maconha? Se existe essa estatística, poucos a conhecem. Apenas uma estatística real que mostrasse que essas drogas causam muitas mortes e prejuízos justificaria o furor com que os conservadores defendem a proibição sumária, sem discussões. E mesmo assim, como justificar a morte de inocentes nessa guerra?
Curiosamente, as mesmas drogas consumidas no Rio de Janeiro são consumidas em quase todo o mundo. Não ouvimos falar de pessoas (traficantes ou inocentes) morrendo feito moscas nas ruas de Nova York, de Buenos Aires, de Londres, de Lisboa ou de qualquer cidade civilizada. Nesses países essas drogas também são proibidas e lá a polícia também reprime o tráfico e consumo. Por que só no Rio de Janeiro isso é tão trágico?
Temos bons sociólogos, historiadores, nossos políticos estão sempre viajando para outros países, especialistas em segurança pública estão sempre aparecendo na mídia para comentar suas opiniões sobre o assunto e nada muda. Pessoas inocentes continuam morrendo nas ruas do Rio.
Durante muitos anos criou-se uma cultura do medo das drogas sem uma compreensão sobre o assunto. Dizia-se que drogas eram perigosas, divulgava-se publicamente essa noção sem maiores esclarecimentos, e pronto. Talvez na cultura brasileira ainda persista um ranço do medo ilógico, do medo sem explicação. Um exemplo afastado desse tema pode ilustrar esse fato: ainda hoje, mais de 20 anos depois de ter terminado uma ditadura militar de extrema direita que amordaçou o povo por 20 anos, ainda encontramos pessoas que “xingam” outras pessoas de “comunista”, de “subversivo” etc. Será por acaso? Será um direitismo orgânico? atávico? Provavelmente não. Talvez seja o hábito de sentir medo sem questionar suas razões, sem procurar conhecer melhor sobre o assunto, sem perguntar a opinião do vizinho, do colega de trabalho.
Quanto a esse medo das drogas, observo, como médico, que se passa algo semelhante. Às vezes ainda ouço no consultório, pais que têm filhos envolvidos com drogas, ou pais que simplesmente têm medo que isso aconteça com seus filhos, repetirem como um mantra: “não conheço essas coisas, nunca conheci, nem quero conhecer, não sei a cor nem o cheiro que isso tem, Deus me livre!”. Isso retrata um medo irracional mas ao mesmo tempo mostra que, pelo fato dessas pessoas estarem ideologicamente contaminadas pela idéias de que tudo que se relaciona com as drogas é perigoso e marginal, acreditam que não conhecendo, não estarão se envolvendo. E por isso mesmo, nem discutem o assunto. É proibido e pronto. Curiosamente, muitas dessas pessoas não se opõem, por exemplo, a ter uma arma em casa (supostamente, um artefato que deveria estar ligado somente àqueles que por qualquer razão profissional precisam disso). Outras dessas pessoas, também curiosamente, não tem nenhuma opinião negativa quanto a voltarem de uma festa guiando seu carro depois de terem tomado uns drinques. Algumas também são fumantes de tabaco, mas... “sabe como é, doutor, é tão difícil largar esse vício...”.
Enquanto isso, a uma hora dessas, uma criança de seis anos pode estar caída morta numa rua do Rio de Janeiro com uma bala perdida que encontrou sua cabecinha em seu trajeto. Enquanto isso a sociedade continua acreditando que viveríamos num mundo mais perfeito sem os perigosos traficantes e suas drogas destruidoras de lares.
Um pouco mais de coerência nessa discussão poderia poupar algumas vidas inocentes.