O Mal-Estar na Civilização é o texto magnífico onde Freud analisa os impasses decorrentes do fato de o homem ter saído da natureza e ingressado no campo da cultura. Ali ele afirma ser necessário conter os desejos agressivos e sexuais para tornar possível a vida em comum. Como conciliar isso com o objetivo terapêutico maior da psicanálise que propõe justamente combater a repressão e tornar conscientes os conteúdos agressivos e sexuais que ela afastava da consciência? Essa aparente contradição se desfaz quando lembramos que a superação da repressão e a integração no psiquismo dos conteúdos até então reprimidos não deve ser confundida com a realização concreta destes desejos na realidade. O levantar da repressão dá ao sujeito um maior conhecimento sobre si mesmo, fortalece seu ego e faz com que ele deixe de atribuir à outra pessoa (via projeção) desejos e fantasias que são de sua própria lavra. Cabe ao sujeito, agora de posse de seus desejos antes reprimidos, avaliar a adequação e a oportunidade de pô-los em prática ou reconhecer que tem de renunciá-los de uma vez por todas. Isso implica o reconhecimento da lei e a aceitação de limites, um abandono do narcisismo onipotente infantil e uma aceitação do princípio da realidade.O fato de Freud considerar a civilização como valioso apanágio da humanidade a ser protegido contra a barbárie sempre à espreita não impede que a psicanálise exerça sobre ela uma crítica sistemática, o que a coloca numa posição muitas vezes contrária ao consenso geral, despertando resistências e hostilidades. No tempos iniciais, Freud e a psicanálise se opunham à hipocrisia com a que a sociedade tratava a sexualidade, reprimindo-a maciçamente, fazendo-a manifestar-se no corpo contorcido, paralisado, convulsivo da histérica. A psicanálise ajudou a mudar este panorama e o que vemos hoje em dia é o oposto do que ocorria no tempo de Freud. Ao contrário da censura, da repressão e do impedimento superegoico contra a sexualidade, prevalece agora a imposição do gozo ininterrupto, a ordem é gozar. É exigido de todos uma vida sexual intensa e variada, sendo discriminados aqueles que não cumprem com tal imperativo. A sexualidade se exibe às escâncaras nos meios de comunicação, que ininterruptamente confundem o público e o privado. Enquanto os anseios eróticos eram vigiados e reprimidos na era vitoriana, agora o mercado está atento a todo e qualquer desejo para transformá-lo num objeto de consumo, oferecido pela enganosa publicidade como o passaporte para a felicidade instantânea. O que aconteceu? Teriam desaparecido os impedimentos e a repressão? É claro que não. A psicanálise entende que a repressão se desloca para outras áreas, por exemplo, impedindo a manifestação da genuína intimidade afetiva. Ao apontar as falácias da sociedade do consumo, o vazio decorrente do narcisismo desenfreado, a negação da falta e da incompletude, a liberdade equivocada que leva às fobias e ataques de pânico, a psicanálise, mais uma vez. está na contramão. No próprio campo terapêutico, o espírito do tempo volta a ficar contra a psicanálise. Ela é desmerecida como algo ultrapassado pela neurociência (que reduz o funcionamento mental ao equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais) e pelo cognitivismo (teoria psicológica herdeira do behaviorismo, baseada em processos cognitivos conscientes, que ignora - consequentemente - o Inconsciente freudiano, e tenta aproximar o funcionamento da mente ao processamento de dados por um computador).
terça-feira, 22 de setembro de 2009
domingo, 13 de setembro de 2009
Tem nos servido de leitura de apoio os livros de Luiz Alfredo Garcia Rosa. Em nosso último encontro falei do livro O MAL RADICAL EM FREUD, no qual, em seus capítulos iniciais o autor procura fazer uma arqueologia do pensamento freudiano partindo do pensamento grego clássico e vinculando o surgimento da palavra como definidora do que é o homem. A palavra, ou a linguagem, melhor dizendo, é o que proporciona a emergência do símbolo, o que caracteriza o pensamento humano como essencialmente simbólico. Tendo se descolado da natureza (isto é, deixando de ser um animal "natural" como os outros animais), o homem foi lançado numa errância, ou seja, seus desejos não são mais satisfeitos com os objetos naturais, seus desejos passam a pertencer ao mundo simbólico e consequentemente passam a ser irrealizáveis, em sua maioria. Daí por diante, apenas uma satisfação parcial passou a ser possível. Tendo perdido sua suposta organização natural, o corpo, enquanto corpo material, perdeu sua forma. Rreduzido a uma matéria sem forma, teve que constituir, na sua articulação com o mundo, uma nova forma, uma nova anatomia e uma nova fisiologia.
Dizer que o corpo foi reduzido a uma matéiria sem forma, é afirmar que a partir da linguagem, a suposta ordem natural que ele tinha em si mesmo, foi perdida e reduzida, daí por diante, a uma ordem mítica. Tomar a linguagem como ponto de partida, significa recusar a ordem prévia que o naturalismo impõe ao mundo.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Prossegue nesta terça feira, 8 de setembro, às 19h30m o CAFÉ PSICANÁLISE. A proposta é aproximar pessoas, com diversos interesses profissionais e pessoais, em torno de um bate papo em que se tratem de temas atuais utilizando o suporte teórico da psicanálise e dos saberes correlatos. O objetivo não é um didatismo acadêmico mas sim um olhar crítico, aberto e contemporâneo sobre fatos que nos causam inquietação e que apontam para os desafios dos chamados "tempos modernos". Para que não percamos de vista uma certa sequência lógica, propus no encontro anterior que observássemos um arco histórico que abarca desde os pensadores gregos clássicos até chegarmos a idade moderna, antes do advento da PSICANÁLISE freudiana propriamente dita. Chamamos o período imediatamente anterior à invenção freudiana, de pré-história da psicanálise, apenas para caracterizar que a teoria do inconsciente não nasceu pronta para ser usada, mas sim, que foi antecedida por uma linha evolutiva na qual o conceito de homem moderno vai se constituindo pouco a pouco. O homem moderno é aquele que se afasta do medo do transcendente (muito forte a partir da idade média) e ao mesmo tempo ainda não sabe como lidar com o sentimento de solidão diante do vazio da existência atual. Afastados os medos ancestrais restou uma crença questionável na ciência, como se esta fosse capaz de mais cedo ou mais tarde nos oferecer respostas para todas as nossas dúvidas.
Iremos continuar amanhã nosso bate papo sobre esses e outros temas.
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